Eu sei que a tua sogra não é das mais certas, que o meu irmão adora um baseado e que eu carrego o sobrenome de carência. Já tentei trocar, eu juro! Mas a mulher do cartório falou que eu precisava de uma justificativa coerente. Falei pra ela que eu não era inteiro longe de ti. Ela disse que ninguém morre colado.

Não quero mais continuar sozinho. As trilhas são cansativas quando não temos ninguém para contemplar a natureza. As viagens são chatas quando não temos alguém sempre disponível para tirar as nossas fotos. Os meus amigos são uns filhinhos do conforto, tu sabes disso. Não consigo imaginá-los em volta de uma fogueira tocando violão e assando marshmallow. Seria mais certo eu ver algum deles buscando sinal em cima de um morro para fazer check-in em uma de suas redes sociais. Distante de ti eu sou um gomo sem suco, um pão sem manteiga, uma coca-cola sem gás, um big mac sem a carne. Sei que há felicidade separados, só é mais difícil de mantê-la.

Já liguei pro meu chefe dizendo que eu não vou amanhã e que talvez eu não dê as caras nesta semana. Minha mãe me pagou aquele dinheiro que ela me devia. Pelas minhas contas, juntando com o meu porquinho, a gente consegue fugir por uns dias por aí. Tem um busão barato até Porto Alegre. Tem uma alegria no lado de fora desta cidade. A gente pega uma carona por lá, diz que vai tentar a sorte na cidade grande e tratamos de nos amarmos lá mesmo.

Diz que sim, vai. Guarda um dos teus nãos dentro daquela mochila em que tu carregas a casa nos ombros. Deixa para negar somente a presença da solidão quando um dia ela aparecer. A gente deita à noite na beira da praia para contar as estrelas. Faço do teu peito um travesseiro e da tua boca o meu êxtase. A gente fica ali se amando, sem pressa de ver o sol nos dando bom dia. Agradecendo baixinho à felicidade, com medo de acordar a inveja. Satisfeitos por nada ter dado certo antes.