Ele não vai voltar.

Não às 21h na hora da novela nem às 18h pro café.

Não vai adiantar a exuberância do teu vestido no casamento da tua melhor amiga, porque ele só vai se der. Se sobrar tempo. Se não conseguir encontrar alguma desculpa totalmente compreendida por ti, vindo do celular dele. Aquele mesmo celular que tu tanto temes que envie "saudade" para algum número que não seja o teu.

Tu vais rir no meio de uma segunda-feira, porque a vida diz que estar bem é sorrir sem preocupações, sem aqueles buracos de escuridão que a gente tenta tapar com um sorriso, mas não dá.

Hoje também ele não aparece.

E não vai importar quantas pessoas entrem pela porta do bar, nem a sequência de vezes que tu vais inclinar a cabeça para verificar…

É só perda de tempo.

Teus amigos planejam viagens e acampamentos em casais, mas tu acabas desistindo porque ele tem uma reunião importante no final de semana, quase à meia-noite, numa cidade que nem teu vizinho, que é professor de Geografia, ouviu falar. Está doendo.

Tuas brigas com o próprio espelho não se dão porque soubeste que não és a mais bonita do mundo, mas porque tu estás sendo a mais otária do momento.

E tu sabes disso.

Ele vai sumir, como quem morre sem deixar pistas do seu paradeiro. Ele vai desaparecer só pra te deixar louca, ou porque encheu o saco da tua falta de amor-próprio, dos teus muxoxos subentendidos querendo voz de companheira.

Talvez hoje ele apareça.

Aí, tu começas a andar pela casa, “contando as vantagens dessa relação nos dedos… e se pega cheia de dedos”, correndo para o Google atrás da definição de amor, já que a tua está confusa. Acabas percebendo que o lance de vocês só “funciona na horizontal”, na cama, no sofá, em quartos alugados, antes das dez, inexistente nos finais de semana.

O telefone toca.

Alguém te liga, mas não ele. É tua mãe. Tu ficas puta. Tu inventas um cansaço. Diz ligar depois. O telefone não pode ficar ocupado. Não é momento para se correr riscos. Vá que ele pense que tu estás falando com outro. Ele é ciumento, mas detesta ciúmes. Tu és dele, mas ele não pode ser teu.

O celular vibra.

Teu coração parece acabar de sair de um assalto, tua casa está mais bagunçada que as tuas próprias emoções, já ensaia informá-lo que não repare na bagunça. Enquanto o roupeiro abraça as roupas perdidas pelo quarto e água esquenta na chaleira pro chimarrão, tu lê a mensagem: "Hoje eu não vou."

E ele não vem.