A nossa relação não tinha nome. Era mais que uma amizade e menos que um namoro. Uma junção de propósitos. Um acerto sem denominações. Era uma parceria recíproca. Uma casualidade invejada. Um relacionamento sem atualização de status ou aceitação alheia. Ele tinha um único propósito: aproveitar e, talvez, envelhecermos juntos. Preservava a ideia de que a vida é muito curta para pensarmos no amanhã. Eu gostava dele, mas ainda me faltava algo. Eu precisava saciar a sede dos meus olhos de enxergar uma aliança no dedo, contar para a minha mãe que eu estava com alguém, perguntar para minha avó se haveria algum colchão sobrando na casa dela. Eu queria namorar e ele não. Ele dizia que estar junto era o suficiente. E aquilo pra mim era ultrajante. Eu queria mais! Não conseguia me alimentar de incertezas, muito menos de sobreviver de hipóteses. Naquela época, a minha necessidade de rotulação era maior do que simplesmente estar com alguém.

Eu o conheci na faculdade. Gaudério, grosso e com sede pela vida. Tinha a simplicidade como sobrenome e não como aparência. O guri era um brechó de vivências. Apesar da sua pouca idade, representava maturidade nas palavras. Nos conselhos de levar a vida, colecionando apenas o que poderíamos levar além dela. Uma parceira que fez eu entender o segredo da longevidade: companheirismo. "Alguém que te acompanha nas tuas loucuras, será alguém que te acompanhará pelo resto da vida." Era sua frase de bolso e hoje é a minha de apresentação.

Ele tinha um fusca azul. Uma maldição por todos os tapas que eu dei nos amigos, por todas as gargalhadas ao ver alguém andando em um. Por todas as correntes que eu quebrei no Orkut. Eu sempre tive um horror a fusca. Detestava como quem detesta merda em sapato. Eu fui trocado pelo meu primeiro romance por um cara que tinha um. O babaca se achava o tal, metido a pegador, havia roubado a minha paixão adolescente e ainda se gloriava da vitória buzinando a derrota na minha cara. Um abuso de gente, um abusado sem coração. Alimentei um ódio não pelo dono, mas pelo veículo. Ficou uma pendência no passado, uma raiva que seria corrigida no futuro.

Para poder dirigir o fusca do gaudério, nascido na fronteira, não era preciso carteira de motorista. Os agentes de trânsito, quando nos paravam em alguma blitz, apenas solicitavam a carteira de vacinação confirmando o antitetânico. O rádio era o som do celular dele. O ar-condicionado era do abano de um caderno e o cinto de segurança era um sinal da cruz e uma oração de “Deus esteja conosco”. Viajamos até Porto Alegre dentro daquele pseudocarro, suando feito uns porcos e rindo feito umas hienas. Um amor de verão. Uma alegria de ter encontrado a outra metade, como dizem por aí.

Eu estava contente, mas ainda faltava algo. Não era tão simples ele aceitar meu pedido de namoro? Porém, a desculpa era sempre a mesma: estamos juntos e ponto. Não precisamos de denominações. A inveja adora rótulos.

Foi um dos verões mais quentes que tive. Sem chuva, sem tormenta, sem temporal. Eu não sabia quando era dia, muito menos quando a noite chegava. Quando março se anunciou, junto a ele veio uma notícia: “Preciso ir às pressas para minha cidade. Meu pai internou no hospital e preciso vê-lo. Volto assim que puder. Mandarei notícias assim que obtê-las.” Seis horas de viagem era o tempo que nos separava. Para mim parecia uma eternidade. Relacionamento a distância no meu conceito é como querer tomar sol na Antártida, não dá! Não funciona, não engrena.

A gente tenta ficar quente e acaba saindo gelado. Ele foi. Deixou-me aos pedaços dizendo que voltaria assim que desse, e não voltava, não ligava, não atendia. Parei de conhecer novos lugares, de arquitetar alguma estratégia de como conscientizá-lo que precisávamos oficializar o namoro, deixei de atualizar a minha carteira de vacinação. Depois de algumas semanas tentando me recuperar da despedida brusca, e sem nenhuma notícia do seu paradeiro, recebo uma nova mensagem: “Se tu ainda não observaste, estamos juntos e é isso o que importa. Relacionamento é entre duas pessoas. Quando não entendemos que um mais um é igual a dois, vira bobagem, acarreta em confusão. Meu pai está melhor, minha mãe quer saber quem é o guri do sorriso simpático que aparece em todas as fotos do meu celular. Falei pra ela que era alguém, mais que um amigo e menos que um namorado. Não vamos estragar tudo agora, vamos? E ah... Já tomaste tua vacina? Tô chegando em seis horas.”

Aprendi que o amor não exige que rotulemos nada. Parei de contar os meses, esqueci as datas comemorativas e passei a comemorar por estar junto e não por estar durando. Percebi que existem muitos sentimentos que ainda não ganharam nome e que, talvez, nem ganhem. Companheirismo é o segredo para a durabilidade, o formol do encantamento. E a simplicidade é o que nos mantém vivo. E é umas das características que podemos levar além deste plano carnal.

Dentro de um fusca azul, eu amei e fui muito amado. Se namoramos ou não, eu até hoje não sei. Só percebi que rótulos são para objetos, o amor dispensa todos eles.