Antes de começar será preciso terminar. Tu terás que ser assassino das tuas piores lembranças para voltar a ser réu primário. Sem feridas abertas, sem resquícios de amores sujos.

Será preciso esfaquear o ponto e vírgula, tacar fogo na maldita reticências e fazer as pazes com o ponto final. Não será apenas preciso, como necessário. Como beber água no deserto, como rezar com mais afinco em noites tristes, como esperar tempos mornos em dias castigados. Vai por mim. Entenda o quão é importante largar a mão de quem precisa ir sem dó, sem culpa, sem o pavor da tua mão nunca mais encaixar com afinidade de novo. Também entenda que não entender de início é natural, que a agonia vai brincar com os teus cabelos e, sim, a ansiedade vai te pedir Rivotril com gelo.

Depois que toda aquela bad passar, teu presente vai te pedir forças para enterrar teus fantasmas e não mais guardá-los em caixas. Não para correr o risco deles caírem de cima do roupeiro bagunçando novamente o quarto, a vida, tuas emoções. Tu entendes? Percebe o quanto é importante um pingo de Alzheimer?

Nunca nos ensinaram a deixar ninguém, a dizer um adeus educado. Nunca. Quem nos ensinou, bem, podemos dizer que nós mesmos nos autoeducamos de uma analfabetização que, até hoje, nos é tão complicado quanto falar em mandarim. É uma deficiência de não conseguirmos discernir que partidas também geram chegadas, que amores acabam, pessoas mudam e trocam de lugar.

Seja assassino! Mata o que te mata, enterra o que já te enterrou há tempos. Será preciso ter a manha de um criminoso, para que consigas voltar a acreditar no mundo como uma criança inocente.