Tenho uma avó que, aos 67 anos de idade, deixou um casamento frustrado, convicta na filosofia de que nunca é tarde para recomeçarmos. Sem dinheiro e sem opções de lazer por estar com um saldo negativo no banco, resolvi fazer a minha mochila e ir passar as férias na casa da vovó. Assim, ambos nos faríamos companhia e eu emprestaria meus ouvidos às histórias que a libriana adora me recontar só para darmos as nossas gargalhadas depois das dez.

Desde pequeno, sempre tive muito apreço pela dona Ana. Mulher forte, criou os dois filhos sozinha, entrou na luta da vida muito cedo e nunca precisou de homem para se intitular mulher. Foi casada com o seu primeiro marido durante 20 anos. Insatisfeita com a relação, não poupou a acomodação para efetuar o término e juntar os pedaços. Indecisão é uma contrariedade para quem nasce em setembro e outubro, quando os da balança decidem algo, meu amigo, não há Cristo que os faça mudar.

E não foi diferente. Alguns anos mais tarde, sua vida amorosa recomeçou gradativamente até estacionar em 15 anos de relacionamento. Após a descoberta de uma traição, reuniu os pertences do velho em umas caixas, e lhe desejou boa sorte à nova vida longe da sua. A dor da decepção não era apenas acometida pelo lado carnal, mas pela falta de consideração pelos anos de comprometimento à felicidade do companheiro, da ausência de sensibilidade pelo afeto.

Foi em uma noite fria de agosto, que decidimos criar um perfil no Badoo. Desajeitada, estranhando a nova rede social, reconhecemos amigos casados que procuravam novas companhias, amigos de infância que o contato havia se perdido, novos bigodes com promessas de um amor piegas. Minha avó me ensinava subjetivamente, a não desacreditar na felicidade a dois, embora que pareça difícil. Não importa se mais da metade do mundo está interessada em substituir antes de tentar o conserto; se tu estiveres disposto ao contrário, podes ter a certeza que a vida irá te aproximar de vibrações parecidas.

Ensinou-me também, que a dor é o processo para a evolução do espírito. Que a morte deve ser encarada com naturalidade de um novo recomeço. Todos nós, um dia, voltaremos para casa também. E não deixa nunca, por hipótese alguma, o medo esfolar os teus sonhos.