Alguém tem que ser o mal educado. Pegar a carteira, as chaves, o celular e ir embora no meio da madruga. Não vai dar muitas satisfações, inventará alguma desculpa esfarrapada, dirá que trabalha cedo no dia seguinte ou que a mãe já ligou nove vezes. Vai se despedir sem dar tempo do outro retribuir alguma palavra. Não dará beijos de tchau, dizer “durma com deus”, “nos veremos amanhã!”.

Tudo mudou nestes últimos meses, as mensagens não tinham a mesma ansiedade de serem recebidas, as chamadas perdidas não ganhavam a felicidade de serem retornadas. A ânsia de contar as horas para minimizar a distância dos enamorados, passou a ser sinônimo de obrigação, de prisão. De deixar o ciúme falar mais alto, só porque alertava perigo, potencializava o medo de ser substituído por alguém melhor.

Foram meses de muita cerveja, vodka, sexo, cigarro e muita música. A gente se amou muito nestas últimas semanas. Tivemos a nossa maior batalha travada: conviver com as normalidades. Os barracos no meio da rua, pneus cantando no meio de uma via movimentada, acampamento com porre programado, viagens para a cidade vizinha, noites sem dormir, caixas de rivotril, desespero ao ouvir “sua chamada está sendo encaminhada para caixa de mensagens…”, gritos de “me esquece”. O tempo, muito do abusado, não deu trégua para que nos recuperarmos dos nossos traumas, dos erros perdoáveis, das palavras ditas por bocas motivadas pela dor do retruque.

Hoje, é um dia que levantei sem ter uma nova mensagem. Não que eu a espere todas as manhãs, mas acredito que acostumei com o gesto. É normal eu revisar o celular a cada cinco minutos para checar uma nova atualização. Não que eu aguarde, só ainda não perdi o hábito.

Por mais que me pareça difícil, eu tenho que te deixar ir. Arrumar as malas, tirar as fotos que restam pelo quarto e tentar ocupar a mente com atividades quando a saudade bater. Tenho que ser forte, ler três livros ao mesmo tempo, se preciso for. Fazer aula de italiano, viajar, estudar culinária, cantar o refrão da nossa música favorita no inglês pronunciável apenas por mim. Preciso ter maturidade e admitir, que o interesse do relacionamento partiu. Todos me deixaram, até mesmo o amor. Saiu sem avisar, assustado no meio de tantas brigas, discussões, que preferiu ser educado e sair à francesa.

Ontem, enquanto eu arrumava minhas roupas, retirando algumas suas que havia ficado, encontrei uma sacola. Ela estava amassada, dobrada em mil partes, jogada no fundo do roupeiro. Resolvi apostar na teimosia e verificar se ainda pudesse ter algo dentro. Lá, bem no fundo, continha um papel esquecido com a seguinte frase: “Feliz dia 8, amor”. Era o dia oito de um mês, do nosso primeiro aniversário de namoro. Peguei a sacola, o papel, puxei a caneta e fiquei sentado em nossa antiga cama de solteiro com o cheiro de ácaro que tu tanto reclamavas…

A nossa história acabou, contudo, a amizade manda te dizer que daqui ela não sai. A única que pede alguma coisa neste momento é a mente, que precisará estar longe para curarmos as nossas dores e tirar tua presença de cena. Estaremos íntimos apenas pelo mesmo pensamento: seguir em frente. Arquitetando o plano de nos esquecermos, ou então, pelo menos, tentarmos.

Obrigado pelos dias de sol por aí, pelas longas noites de conversas, pelas gargalhadas ecoadas nas madrugadas vazias de Pelotas, pelas pedaladas sem rumo, pelos abraços em dias frios, por ter sido meus olhos quando as decisões me cegaram. Eu te amei tanto, que infelizmente não tive espaço para poder me amar de volta.

A vida está me chamando lá fora e a ti também. Aproveitei para pedir ao chefe lá de cima, que cuide deste sorriso, já que não estarei mais por perto. Vai viver! Que eu já vou me despedindo aqui, antes que as lágrimas borrem as lembranças dos meses mais felizes que tive nesses anos da minha vida. E ah, não me espera pra jantar hoje à noite. Talvez, eu não volte.