Vais acreditar que estás seca, amaldiçoada, trancada como se algum babaca tivesse jogado a chave das tuas continuidades fora. Tu vais passar semanas conhecendo os trastes mais truculentos e dizer aos quatro cantos que não existe reciprocidade quando uma acaba.

Depois de meses vais pensar no ex como quem pensa em pudim quando se está de dieta. Irás invejar os casais nos restaurantes, repudiar beijos em público, jogar o roupeiro em cima da cama e, depois de alguns minutos se achando mais gorda que uma vaca ou mais magra que a Gina dos palitos.

Vai ter dias, minha amiga, que os teus olhos estarão nas calçadas, atento nas esquinas, vidrados nas escadas rolantes do shopping loucos para se esbarrem em outros. Não irás te sentar no ônibus enquanto não observares todos os que estão dentro, a fim de verificar se o amor não é passageiro.

Terá dias que o cansaço vai acabar com as tuas vontades. Vai ter noites que o passado vai te parecer mais interessante que o teu presente. Cansada e desacreditada, passará pela tua cabeça que a resposta de tudo isso é apenas que a tua hora não chegou, já deve ser tarde lá fora ou romance pode ter esquecido de ti.

Serás a melhor dramática na interpretação dos olhos alheios e a deficiente visual quando te dizem que muitos te olham, só tu que não observas. E, realmente, não deves ter tempo para observar mesmo, acredito que estejas tão focada em encontrar quem ainda nem encontraste, que qualquer caminho serve, qualquer promessa de vida a dois enrolada pra presente é biscoito para as tuas expectativas. É a espera exausta por um amor pronto, pela tua incapacidade de viveres só, pelo estereótipo que adorarias desfilar de mãos dadas na noite de Natal.

Tua mãe diz que tu ainda és menina, e eu concordo. É aquela guria que tem mania de guardar tudo, colocando todas as mágoas em uma mala achando que ela não vai arrebentar logo ali. A mesma que cresceu com o passar das decepções, tentou adaptar a fantasia, só não foi avisada que o mundo é outro e a realidade também.

Contudo, ainda assim, vai chegar o dia em que vais andar com a roupa que se anda em casa por aí, com o cabelo preso a um lápis velho e o semblante de quem não procura mais o que não deve ser procurado. E lá, na fila do supermercado ou nas esquinas da vida, em uma quinta-feira qualquer, tu vais encontrar alguém que vai te fazer acordar a sede de vida que já não tinhas há tempo, vai te relembrar o quanto tu podes ser gostosa da maneira como realmente és, e que o mundo pode ser uma delícia quando a companhia viaja contigo a lugares vistos antes apenas pelo Google Maps.

Eu tenho certeza que vai chegar o momento de topar com alguém que te deixará parecendo uma idiota, um ser especial que irá despertar tua sagacidade para aquelas habilidades que só tu sabes fazer com a boca, e os mimos que tu te dispõe a fazer porque a felicidade do outro também é recompensa. Uma luz que chega para acalmar teus medos, procurar tua mão no sofá em um domingo à noite, raspar o pote de Nutella, a dar um basta na tua espera cansada.